segunda-feira, 16 de novembro de 2015

HISTÓRIAS EM QUADRINHOS 
QUE ENSINAM


Várias são as designações utilizadas em diferentes partes do mundo para se referirem aos quadrinhos: nos EUA, chamam-se comics, devido ao caráter humorístico das primeiras historinhas; na França e na Bélgica, por serem publicados em tiras – bandes – nos jornais e pelos desenhos, são denominadas bandes-dessinées; na Itália, são denominadas fumetti, em referência aos balõezinhos ou fumacinhas que circundam a fala das personagens; no Japão, chamam-nos de mangás; na Espanha, são conhecidos como tebeo – TBO – nome de uma revista infantil (TBO). Todas essas denominações trazem a história ou as características dos quadrinhos. No Brasil, são mais conhecidos como gibi (nome de uma revista em quadrinhos da década de 1930) ou como histórias em quadrinhos (HQs), que remonta à forma narrativa da história disposta em seqüência de pequenos quadros.

Ao comparar as histórias em quadrinhos com outras mídias, Moraes (2002) acredita que a poesia concreta é a que mais se aproxima da linguagem dos gibis, que utiliza tanto palavras para comunicar seus sons e sentidos, quanto suas formas e disposição no espaço da página. As histórias em quadrinhos pressupõem o desenvolvimento de uma narrativa por meio da conjugação entre imagens seqüenciais e elementos verbais. Dessa forma, as HQs também são freqüentemente comparadas ao cinema, principalmente ao desenho animado, pois lançam mão da combinação imagem-texto. 

Além disso, essas linguagens, a do cinema e a dos quadrinhos, se desenvolveram simultaneamente sob idênticos impactos sociais e tecnológicos (cf. CIRNE, 1970). Os principais elementos da linguagem em quadrinhos, com base em Guimarães (2002), podem ser resumidos em: 1) ―estilização da imagem‖: trata-se da estratégia mais comum e consiste na utilização de traço bem-definido para dar contorno aos objetos e figuras representados; 2) ―representação do movimento‖ por meio de imagens estáticas: para tanto são utilizados alguns recursos, como deformação de folhas para sugerir vento, dobras de roupas e inclinação de um corpo indicando deslocamento; 3) ―encadeamento de imagens‖: separam-se as imagens por ―calhas‖ e estas são dispostas de maneira a estabelecer um sentido de evolução no tempo, entre as cenas, seguindo a convenção da leitura de textos ocidental – 17 da esquerda para a direita e de cima para baixo (com exceção dos mangás, HQs japonesas); 4) ―representação dos sons‖: isso é feito por meio de sinais gráficos convencionados, tais como onomatopéias (que traduzem diferentes barulhos, ruídos). 

O autor também destaca como elementos importantes da linguagem em quadrinhos: alguns desenhos (como uma lâmpada, que indica uma idéia, ou estrelas em volta da cabeça de uma personagem, que indica tontura ou dor); legendas (que trazem os comentários do narrador); balões (que servem de contorno aos diálogos e que, de acordo com seu traçado, indicam o tom, o volume da fala, assim como idéias, pensamentos, emoções). Talvez, devido a essa multiplicidade de recursos de expressão, os quadrinhos sejam tão utilizados nos mais diversos espaços, em especial, na escola. 

Além disso, para Vergueiro (2004), uma série de motivos explica a utilização dos quadrinhos em sala de aula, tais como: ―a atração dos estudantes pelos quadrinhos‖, que fazem parte do cotidiano de crianças e jovens; ―a conjunção de palavras e imagens‖, códigos diferentes que favorecem a eficiência da aprendizagem; ―o alto nível de informação dos quadrinhos‖, cujas publicações versam sobre os mais diferentes temas e são aplicáveis em qualquer área e em qualquer nível escolar; ―o enriquecimento da comunicação pelas histórias em quadrinhos‖, que permite ao/à estudante incorporar a linguagem gráfica às linguagens oral e escrita, que normalmente utiliza; o ―caráter elíptico da linguagem quadrinhística‖, que propicia o desenvolvimento do pensamento lógico, pois os/as leitores/as têm de preencher em sua mente os momentos que não foram expressos graficamente e outros (VERGUEIRO, 2004, p. 2). 

Assim como em outros países, no Brasil, os órgãos oficiais de educação já reconheceram a importância da inserção dos quadrinhos no currículo escolar, desenvolvendo orientações específicas para isso. Os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (RCNEI) e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) salientam a importância das HQs, ao sugerirem que sejam trabalhadas outras mídias na sala de aula, como cinema, televisão, jornal e as histórias em quadrinhos (VERGUEIRO, 20053 ). Além disso, desde meados da década de 1990, as HQs começaram a aparecer em vestibulares (VERGUEIRO, 2005 4 ). 

O autor aponta como exemplo as provas de ingresso à Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), que utilizam HQs todos os anos. 3 Em entrevista dada a Margarete Azevedo, para a Revista Kalunga de janeiro de 2005 (cf. AZEVEDO, 2005). Disponível em: Acesso em 09 jul. 2006. 4 Em entrevista dada a Margarete Azevedo, para a Revista Kalunga de janeiro de 2005 (cf. AZEVEDO, 2005). Disponível em: Acesso em 09 jul. 2006. 18 No Brasil, os quadrinhos começaram a ser produzidos na segunda metade do século XIX (CIRNE, 1990). Tiveram como um de seus principais expoentes Angelo Agostini, um italiano radicado no país. 

As primeiras produções desse autor foram desenhos e ilustrações políticas que acompanhavam os artigos publicados nas revistas O Mosquito e Diabo Coxo (CIRNE, 1990). Posteriormente, escreveu histórias ilustradas populares, destinadas ao público adulto, como As aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, publicada em 1869 pela revista Vida Fluminense, e As aventuras de Zé Caipora, que começou a ser publicada em 1883 pela Revista Ilustrada e, depois, em 1895, pela revista Dom Quixote (VERGUEIRO, 1999a). A primeira revista brasileira a publicar HQs surgiu em 1905, chamava-se O Tico-Tico e era voltada para o público infantil. O Tico-Tico foi uma das revistas mais populares do país e foi publicada por mais de 50 anos (VERGUEIRO, 1999a). Em 1929, o jornal de São Paulo A Gazeta lançou a Gazeta Infantil ou Gazetinha, caracterizada por publicar tanto quadrinhos estrangeiros (Gato Félix, o Fantasma, etc.), quanto nacionais (Piolim, Bolinha e Bolonha, Garra Cinzenta, etc.), que deixou de circular em 1950 (VERGUEIRO, 1999a). 

Outra publicação que teve destaque no Brasil foi o Suplemento Juvenil, apêndice do jornal A Nação, que começou a ser veiculado em 1934 e que inseriu o modelo norteamericano de produção e veiculação de HQs, apresentando ao público brasileiro personagens como: Flash Gordon, Tarzan, Mandrake, Popeye, Brick Bradford, Mickey Mouse, entre outras5 . Em 1939, a revista Gibi foi lançada. A palavra, na época, significava "moleque", ―negrinho‖, mas, com o tempo, passou a ser associada às revistas em quadrinhos, as quais passou a designar. Adolfo Aizen fundou, em 1945, a Editora Brasil América Ltda. (EBAL), que voltou sua produção principalmente para os comic books, cujas personagens eram DC Comics (Super-Homem e Batman) e Marvel Comics (Homem-Aranha e X-Men) (VERGUEIRO, 1999a). 

Entre seus títulos, destacava-se também a Edição Maravilhosa e o Álbum Gigante, que apresentavam romances clássicos brasileiros quadrinizados. Outros quadrinhos que se destacaram na época são Gibi Mensal, O Gury, O Lobinho e Globo Juvenil Mensal (VERGUEIRO, 1999a). Em 1950, a Editora Abril começou a publicar histórias com as personagens da Disney, como O Pato Donald, Mickey e Tio Patinhas. O mercado das histórias em quadrinhos infantis 5 Para maiores detalhes a respeito, conferir: Acesso em 2 jan. 2007. 19 no Brasil foi então dominado, principalmente, durante as décadas de 1950, 60 e 70 por quadrinhos nos quais figuravam personagens estrangeiras. 

O predomínio dos quadrinhos Disney se deu então nessa época devido à grande atração que exerciam sobre as crianças, o que permitia a edição de grande quantidade de exemplares para cada título publicado pela Editora Abril (VERGUEIRO, 1999a) . Outras editoras, no entanto, também tiveram considerável representatividade nesse tipo de publicação: Rio Gráfica Editora (RGE), cujas personagens eram distribuídas pelo King Features Syndicate; a Empresa Gráfica O Cruzeiro, com as personagens da Hanna-Barbera Productions; e a Editora Brasil América Ldta., que veiculava as personagens da National e da Marvel Comics (VERGUEIRO, 1999a). Essas editoras, como mostra Vergueiro (1999a), contribuíram para dificultar a criação e a publicação de quadrinhos brasileiros, principalmente devido às condições que as empresas norte-americanas originais ofereciam a essas editoras, o que permitia a publicação dos quadrinhos a preços razoáveis. 

O autor aponta três fatores que levaram à predominância da HQ norte-americana sobre a nacional: ―é facilmente universalizada‖, não apresenta outras barreiras culturais para sua leitura por nãoamericanos/as, a não ser a língua, bastando ser traduzida para o idioma local; ―ela já chega aos novos mercados parcialmente paga em seu país de origem‖, sua transposição para outros países representa, praticamente, lucro adicional; ―faz-se acompanhar por fatores intimamente ligados à questão do reforço publicitário‖, as personagens são divulgadas em diversos produtos, como filmes, brinquedos, antes mesmo de chegarem às bancas (VERGUEIRO, 1998). Os quadrinhos infantis brasileiros começaram a conquistar mercado aos poucos com a produção de Ziraldo Alves Pinto e Mauricio de Sousa. Pererê, personagem de Ziraldo, ganhou espaço na revista semanal de maior vendagem na época, O Cruzeiro, em 1960. Mauricio de Sousa, por sua vez, teve sua primeira revista publicada, Bidu, pela editora Continental, no final da década de 1950 (VERGUEIRO, 1999b). 

A Editora Continental publicou poucos números da revista Bidu. No entanto, em 1959, o jornal de São Paulo Folha da Manhã, em que Mauricio trabalhava escrevendo reportagens policiais, ao receber tiras do cãozinho Bidu e de seu dono Franjinha, resolveu dar a Mauricio um lugar no jornal.6 Durante aproximadamente dez anos, Mauricio publicou tiras de jornal e do tipo tablóide de várias personagens que foi criando – Cebolinha, Piteco, Penadinho, Chico Bento, Astronauta, Horácio. Em 1970, a Editora Abril, de São Paulo, publicou a revista Mônica, cuja personagem 6 Leia mais no Histórico feito sobre Mauricio de Sousa, disponível em: Acesso em 02 jan. 2007. 20 principal foi inspirada na filha do autor. Após a publicação da revista, outras personagens também ganharam suas próprias revistas: Cebolinha (1973), Cascão (1982), Chico Bento (1982). 

A revista Mônica vendia, em 1973, 195.000 exemplares e, em 1978, 262.000. Observa-se, como destaca Vergueiro (1999b), que, paralelamente a esse aumento de venda dos quadrinhos infantis brasileiros, houve diminuição da vendagem das revistinhas da Disney. As personagens de Mauricio de Sousa se distinguem das personagens da Disney principalmente quanto à composição. Enquanto estas são antropomorfizações de animais – funny animals, animais falantes (os ratinhos Mickey e Minnie, os patos Donald, Tio Patinhas e Margarida e outros) –, aquelas se caracterizam por ser estilização (cartunização) de crianças. A projeção das histórias em quadrinho de Mauricio de Sousa cresceu tanto que superou muito a produção das revistas Disney. Em janeiro de 1998, a circulação total destas no Brasil era de apenas 15% dos títulos de Mauricio (cf. VERGUEIRO, 1999b). 

As personagens de Mauricio de Sousa não conquistaram apenas os gibis. Aparecem também em inúmeros produtos, como fraldas, extrato de tomate, biscoitos, roupa de cama, jogos infantis, brinquedos de vinil, artigos de papelaria e de festa, materiais escolares, entre outros. O licenciamento das personagens gera milhões de reais por ano para os estúdios Mauricio de Sousa: são cerca de três mil produtos em linha, lançados pelo mercado por mais de 150 indústrias.7 O empresário também ingressou no segmento de cinema, produzindo longa-metragens na década de 80 e alguns curtas na década de 90, além do segmento de parques temáticos (um em São Paulo/ SP e outro em Curitiba/ PR). 

O autor também investiu muito também em seu website: , lançando aí quadrinhos em primeira mão e desenhos animados. Em 2000, o site tinha picos de quase 1,5 milhão de acessos por dia. A Turma da Mônica é publicada em nove idiomas e suas HQs já chegaram a diversos países da Europa e da América Latina. Sua tiragem mensal é por volta de 3,5 milhões de exemplares.8 As revistas da Turma da Mônica começaram a ser publicadas pela Editora Abril, em 1970. Em 1986, passaram a ser publicadas pela Editora Globo e, a partir de janeiro de 2007, são publicadas pela Editora Panini, uma das maiores editoras do segmento de quadrinhos no Brasil e na Europa. 

Os aparatos midiáticos ensinam seus/suas interlocutores/as a 40 interpretar o mundo e a categorizá-lo, normatizam tudo, dizendo o que é certo e o que é errado, o que é normal ou anormal, o que é verdadeiro e o que é falso entre outros (cf. PARAÍSO, 2001; 2002). O discurso, dessa maneira, permite inúmeras aprendizagens, às quais as pessoas estão submetidas. 

O que é ensinado nos mais diferentes artefatos, longe da sua pretensão de neutralidade, inscreve-se em um espaço de poder, social e culturalmente produzido, no qual se luta pelo estabelecimento de normas e regimes de verdade que produzirão sujeitos: ―Certamente nunca se deixou de admitir que a produção da verdade acarrete efeitos sobre o sujeito, como todos os tipos de variações possíveis... (FOUCAULT, 1981, p. 153). 

Mas esses efeitos não são garantidos, pois as relações de poder são dispersas e fragmentadas, e prevêem resistência: ―jamais somos aprisionados pelo poder: podemos sempre modificar sua dominação em condições determinadas e segundo uma estratégia precisa‖ (FOUCAULT, 1981, p. 136). Como têm a característica intrínseca de serem discursivas, as relações de poder sempre se dão em meio a disputas entre os diferentes discursos divulgados na sociedade, sendo a resistência uma forma de poder. Sobre essa noção de resistência/poder em Foucault, Veiga-Neto (2003, p. 151-152, grifos do autor) sintetiza: a ―resistência ao poder não é a antítese do poder, não é o outro do poder, mas é o outro numa relação de poder – e não de uma relação de poder.

Por meio da apresentação das personagens e da composição dos enredos, essas HQs, mais do que divertirem e entreterem, divulgam práticas que ensinam aos/às leitores/as saberes sobre como se vestir, se enfeitar, agir e se comportar se se é uma aluna ou um aluno, uma menina ou um menino.


HQs QUE ENSINAM:

- Sobre Racismo;
- Sobre o Meio Ambiente;
- Sobre Política e Economia;
- Sobre Coleta Seletiva;
- Sobre Corpo e Saúde;
- Sobre Tecnologia;
- Sobre Ser Mulher/ Feminismo.

 


   



REFERÊNCIA BILIOGRÁFICA: 

FREITAS, Daniela Amaral Silva. O discurso da educação escolar nas histórias em quadrinhos do Chico Bento. Dissertação (Mestrado em Educação). Unviersidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Educação. Belo Horizonte: FaE/UFMG, 2008. Disponível em: http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/HJPB-7KNJKE/o_discurso_da_educa__o_escolar_nas_hist_rias_em_quadrinhos_do_chico_bento.pdf?sequence=1. Acesso em: 16/11/2015.

Imagens disponíveis em: http://racismoambiental.net.br/2015/08/02/precisamos-falar-sobre-racismo-por-davi-rocha/; http://ecologicologico.blogspot.com.br/2012/02/historias-em-quadrinhos-preservacao-do.html; http://www.revista.vestibular.uerj.br/questao/questao-objetiva.php?seq_questao=559; http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=23170; http://espacoalfaletrar.blogspot.com.br/2012/08/historias-em-quadrinhos.html; http://pt.slideshare.net/multiplicadora/quadrinhos-1; https://www.youtube.com/watch?v=J9HRmgk4qiY; http://edukatu.org.br/cats/7/posts/56. Acesso em: 16/11/2015.

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