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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

CRIANÇAS TRANSGÊNERO: 
MAIS UMA POSSIBILIDADE DE VIDA!


ballet girl 2005  balletgirl 2010

boy 3 2007  boy3 2009

girl 2003  girl 2015  

butterfly tableau 2012 butterfly tableau 2010

Com certeza, sempre existiram muitos casos de transgêneros, no entanto, é algo pouco falado já que se trata de um assunto tabu. Ultimamente, aqui no Brasil, o tema acabou ficando em evidência com a modelo Lea T., filha do ex-jogador de futebol Toninho Cerezo.
Mas imagine as situações e frustrações que Lea e seus pais passaram quando ela ainda era uma criança? Então, apesar de todo o preconceito e sofrimento, algumas famílias estão enfrentando o mundo pela aceitação de seus filhos.
Com isso, diversos casos têm se tornado público. Por exemplo, uma mãe norte-americana com filho diagnosticado como "gender non-conforming", ou seja, indivíduo que não se encaixa em um estereótipo claro de gênero, relata em seu blog o comportamento do pequeno, que desde os 2,5 anos tem mostrado interesses femininos.
Cheryl Kilodavis, autora do livro "My Princess Boy" ("Meu Menino Princesa") se surpreendeu quando seu filho caçula Dyson passou a se interessar por vestidos de princesas. No entanto, ela ainda não tem certeza se ele é uma criança transgênero, pois ele se identifica como menino, apesar de gostar dos vestidos.
Também nos Estados Unidos, um casal contou à rede de televisão ABC que seu filho Coy Mathis já se recusava a usar roupas de meninos quando tinha apenas 1,5 ano.
Breno Rosostolato, psicólogo clínico e professor da Faculdade Santa Marcelina, diz que são exatamente esses os primeiros sinais e ressalta que não é algo raro. "Os casos de crianças que apresentam preferências e comportamentos do gênero oposto e não correspondem ao comportamento esperado conforme sua anatomia são comuns e as primeiras evidências surgem ainda na primeira infância."
Ele explica que existe um termo apropriado, o "gender non-conforming", ou seja, crianças que não se encaixam a classificações tradicionais de gênero: menino ou menina, como mencionado anteriormente. "Os sinais mais evidentes são revelados nas brincadeiras, escolhas de brinquedos e roupas. Existe, inclusive, todo um movimento de dar liberdade para a criança se enquadrar naturalmente ao gênero que ela desejar, o "gender neutral parenting" (criação de gênero neutro). A incompatibilidade com o corpo vai se manifestar de forma mais acentuada à medida que esta criança se desenvolve", detalha Rosostolato.
Logo, vale definir o que é indivíduo transgênero. "Ele é sustentado pela identidade sexual, ou seja, a maneira como se identifica e se reconhece. Nem sempre o corpo confirma aquilo que ele pensa. É o homem que se vê como mulher, mas o corpo não combina com sua identidade e vice-versa. Os transgêneros são os sexos cerebrais", explana o especialista, acrescentando que gênero, masculino ou feminino, erroneamente, é um eufemismo para sexo. "O sexo está ligado ao órgão genital, pênis ou vagina. O gênero é o comportamento, postura e atitude que a sociedade espera e que, portanto, é imposto."
Em razão do desconhecimento dessa definição mais detalhada apresentada pelo psicólogo, é muito comum as pessoas associarem o transgênero ao homossexualismo. Na verdade, isso é um engano, já que a homossexualidade, assim como a heterossexualidade e a bissexualidade, está ligada à sexualidade, ou seja, como é vivenciado e concretizado o desejo sexual. Logo, a orientação sexual não está condicionada ao órgão sexual, pênis e vagina, tampouco ao papel social e ao gênero, masculino ou feminino.
"A pessoa pode ter nascido com o corpo de um homem, sentir-se uma mulher e ter o desejo por uma mulher, ou seja, o transexual pode ser heterossexual ou homossexual. A questão é que se sentir masculino ou feminino difere de se sentir homem ou mulher, até porque essas últimas classificações são estereotipadas e reforçam a dicotomia social", afirma o especialista.
Como lidar?
Não há como contestar que se trata de uma situação complicada, não só para a criança como também para os pais. Por isso, é necessário ter coragem e força para defendê-la do preconceito. No entanto, primeiramente, pai e mãe precisam entender e aceitar o diagnóstico do filho.
"A participação e compreensão são imprescindíveis. Os pais devem praticar a tolerância e não adotar uma postura preconceituosa, constrangedora ou de reprovação. Portanto, precisam sustentar a diferença, compreender a situação, manter o diálogo e ajudar a criança no que for necessário. Para tal, não devem se prender às exigências e imposições sociais, mas se libertar para poder acolher o filho. Amar é respeitar e é diante deste preceito que os pais devem viver", ressalta Rosostolato.
O especialista ainda afirma que é primordial passar segurança para a criança, que pode acontecer, concomitantemente, com o diálogo e as explicações que os pais podem fornecer. Com isso, é possível abordar a sensação e os sentimentos que ela possui sobre si mesma, procurando esclarecer que esta diferença não interfere na relação dela com os amigos e que não há nada de errado.
"Pai e mãe podem amenizar eventuais discriminações na escola conversando com a diretoria e professores. A conversa e o apoio dos pais fortalecem o filho que inevitavelmente experimentará o sofrimento causado pelo preconceito. Mas proteger não é esconder ou enclausurar a criança num mundo fechado. Ela precisa ser encorajada a se relacionar com as outras crianças e não se sentir envergonhada. Isso facilita a aceitação", adiciona o psicólogo.
E foi exatamente o que fizeram o pai e a mãe de um menino de 6 anos que se identifica como menina, nos Estados Unidos. Desde que passou a frequentar a sua escola atual escola no Colorado, Coy Mathis se apresentava como menina, sendo tratado dessa forma por professores e colegas, inclusive, usando o banheiro feminino.
O número de crianças com menos de dez anos que foram encaminhadas para o serviço britânico de saúde devido a problemas de identidade de gênero quadruplicou nos últimos seis anos. A apresentadora da BBC Victoria Derbyshire acompanhou alguns dias na vida de duas das crianças transgênero mais jovens na Grã-Bretanha - com autorização dos pais. No relato abaixo, a história de Lily e Jessica e de como elas tiveram de superar o preconceito na escola e até dentro da própria família.
Lily e Jessica (nomes fictícios), de seis e oito anos, entram na sala rindo e conversando, carregando bolsas cheias de brinquedos como bichinhos de pelúcia da Hello Kitty e bonecas Monter High. As duas falam sobre os nomes dos brinquedos e apontam quais os favoritos em uma cena comum quando duas meninas brincam.
Mas estas meninas nasceram meninos. Poucos anos depois de seu nascimento, na verdade quando elas começaram a falar, já demonstravam gostar de coisas tipicamente associadas e meninas: vestidos, joias, bonecas e nomes de meninas.
Nada dá pistas de que elas nasceram meninos: as roupas e corte de cabelos são de meninas, o jeito de brincar e conversar. E os nomes que escolheram para proteger suas identidades: Jessica e Lily.
"Quando decidi que eu era definitivamente uma menina? Por toda minha vida, diz Lily.

Banheiro da escola

Segundo os pais das crianças, desde muito cedo Lily e Jessica já sabiam das diferenças de gênero. Com o tempo, foram ficando cada vez mais infelizes por terem nascido de um gênero que não viam como sendo o seu.
E não era apenas uma insatisfação comum de uma criança que é obrigada a comer algo que não gosta ou arrumar o próprio quarto. As duas estavam muito incomodadas e até angustiadas com o fato de terem nascido meninos.
"Se eu tivesse que viver como um menino, ficaria muito triste. Muito triste mesmo. Mas agora, vivo como uma menina e me sinto muito melhor", acrescentou Lily.
Antes de encontrar Lily e Jessica eu estava cética quanto à possibilidade de crianças tão pequenas terem uma noção tão clara de que tinham nascido em um corpo errado.
Como alguém tão jovem poderia estar certo de pertencer ao sexo oposto, de querer usar roupa de menina, brincar de boneca e com outras meninas da classe? Certamente suas preferências - assim com as de meus dois filhos, em idades semelhantes - poderiam mudar a cada semana.
Mas as duas meninas não pareciam mostrar qualquer dúvida. Os pais de Lily e Jessica contaram que também pensaram que poderia ser apenas uma fase, mas isto já dura há vários anos.
Jessica conta que suas matérias prediletas na escola são matemática, leitura, arte e história. E acrescenta que, quando era um menino, era "muito frustrante para mim. Eu sentia como se não me encaixasse".
Houve um tempo em que Jessica não era aceita nem no banheiro da escola, os meninos pensavam que ela era uma menina, mas ela também não podia usar o banheiro das meninas.
Jessica chegou ao ponto de quase não beber água na escola para precisar usar o banheiro apenas quando chegasse em casa.
Em uma ocasião, uma das cozinheiras da escola agradeceu por Jessica ter pego talheres do chão dizendo "bom menino" e Jessica reagiu aos gritos. Foram necessários cinco professores para controlar a situação.

Papel dos pais

Alguns culpam os pais por esta situação: a forma como eles criam os filhos, mimando-os ou, de forma inconsciente, "condicionando" a criança pois queriam uma menina ou um menino.
Questionados se acreditam terem feito algo errado, os pais demonstram angústia. Muitos, com filhos mais velhos que se comportavam como "típicos meninos", nunca tinham ouvido falar de transtornos de identidade de gênero.
Jen, a mãe de Lily (também nome fictício) conta que quando Lily tinha quatro anos e ainda era tratada como menino, entrou em seu quarto quando ela estava se vestindo e perguntou: "Uau, posso usar um vestido como este quando crescer?". Jen achou bonitinho, mas pensou que era apenas uma fase ou até que seu filho poderia ser gay.
Na mesma época, Lily também teve ataques quando finalmente colocou um vestido e os adultos tentaram tirar o vestido que ela estava usando.
Isto tudo gerou muita tensão com os avós dela. Em um passeio, a avó tentou impedir Jen de comprar uma mochila rosa para Lily, para não "estimular" o menino.

'Condição rara e complexa'

Não há números precisos sobre a quantidade de pessoas com transtornos de identidade de gênero na Grã-Bretanha, pois muitas pessoas nunca procuram ajuda.
Os únicos lugares da Grã-Bretanha especializados nestas questões e voltados para crianças e adolescentes com menos de 18 anos são clínicas em Londres e Leeds.
O Tavistock and Portman NHS Trust define a disforia de gênero em jovens como "uma condição rara e complexa onde existe incongruência entre o gênero percebido pelo jovem e o sexo biológico".
Nos últimos seis anos quadruplicou o número de crianças de dez anos ou menos sendo encaminhadas para estas clínicas. Em alguns casos, as crianças tinham cinco anos ou menos e, em outros, até três anos.
Especialistas afirmam que a disforia de gênero pode ser muito traumática para uma criança e para a família, principalmente quando a criança chega à puberdade.
O Tavistock and Portman NHS Trust afirma que, no caso de criança, eles a monitoram por um tempo, mas não consideram adequado fazer um diagnóstico formal em crianças muito pequenas.
Por isso, a abordagem é aconselhamento e sessões de apoio, sem nenhuma intervenção médica, até as crianças chegarem à puberdade, quando poderão ser oferecidos bloqueadores de hormônio dependendo do caso.
Estes bloqueadores atrasam as mudanças físicas da puberdade, o que dá tempo para a pessoa viver como homem ou como mulher. Depois disso, o paciente poderá pensar em tomar outros hormônios para mudança de sexo, a partir dos 16 e fazer a cirurgia depois dos 18 anos.

Felizes

Existem poucas pesquisas que tentam descobrir a razão de uma pessoa ser transgênero. Uma das mais recentes foi feita pela Escola de Medicina da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, no começo deste ano.
Segundo esta pesquisa, existe uma explicação biológica, mas os pesquisadores sugeriram mais estudos para verificar se é algo que ocorre nos genes, nos hormônios ou se há alguma outra razão.
O que se sabe é que a vida para um transgênero pode ser muito difícil, marcada por problemas de aceitação, preconceitos e bullying.
Os pais de Lily e Jessica tentam proteger as crianças de tudo isto mas também acreditam que, conversando sobre o assunto e conscientizando as pessoas, podem combater os preconceitos.
E, tudo indica, que, no momento, as crianças estão satisfeitas.
Quando questionada se mudará de ideia no futuro e voltará a viver como menino, Jessica responde que não voltaria: nem aos 18, nem aos 40, 50 ou cem anos.
Ela vai à escola com roupas femininas e está satisfeita com o fato de colegas e professores a aceitarem.
"Ela está tão feliz que apenas sorri e está radiante", disse a mãe de Jessica.
A mãe de Lily, por sua vez, quer apenas que a filha seja feliz, aproveite a vida, tenha amigos e vá bem na escola. Como a mãe de qualquer criança de seis anos.
Nos EUA, pais seguem luta para que criança transgênero seja tratada como menina

O corte curto militar deu lugar ao cabelo comprido. Calças jeans deram lugar a vestidos cor de rosa. E as grandes bochechas da criança ficavam molhadas de lágrimas quando alguém se referia a Coy como menino.
Na metade do jardim de infância, após consultarem médicos, os pais de Coy informaram à escola que Coy se identificava como menina e devia ser tratada como uma –seja no uso de pronomes femininos para descrevê-la ou permitindo que Coy usasse seus vestidos favoritos.
"Ficou claro que não se tratava apenas de gostar de cor de rosa ou de coisas femininas", disse Kathryn Mathis, a mãe de Coy, lembrando de como Coy tinha ataques de ansiedade quando as pessoas o tratavam como menino. "Era como se ela se esforçasse para nos mostrar que era uma menina."
Mas em dezembro, poucos meses após Coy, 6 anos, ter iniciado a primeira série, a família Mathis a retirou furiosamente da escola, após ser informada de que ela não mais poderia usar o banheiro das meninas, mas que poderia usar o toalete neutro.
Uma carta de uma advogada da Fountain-Fort Carson School District explicou que "a medida que Coy se tornar mais velho, se sua genitália masculina se desenvolver juntamente com o restante do seu corpo, alguns pais e alunas provavelmente ficarão incomodados por ele continuar usando o toalete feminino".

Agora, o caso de Coy está no centro de uma disputa legal que provavelmente testará a lei antidiscriminação do Colorado, que expandiu as proteções para as pessoas transgênero em 2008.

Casos se espalham pelos EUA

O caso do Coy Mathis está se desdobrando nesta pequena cidade ao sul de Colorado Springs, enquanto outros Estados por todo o país estão buscando esclarecer suas políticas em relação a estudantes transgênero.
É uma questão que está se tornando mais comum nos últimos anos, à medida que grupos de defesa buscam assegurar que os distritos escolares fiquem mais atentos às necessidades das crianças transgênero.
Segundo o Fundo de Educação e Defesa Legal dos Transgênero, que deu entrada ao processo junto à divisão de direitos civis do Colorado em nome da família Mathis, 16 Estados e o Distrito de Colúmbia oferecem alguma forma de proteção legal às pessoas transgênero.
Em muitos casos, essas proteções se estendem às escolas, onde os rituais mais mundanos, como ir ao toalete ou usar o vestiário, podem ser especialmente traumáticos para os estudantes transgênero.
Atualmente, mesmo em Estados onde não existem proteções, os distritos escolares se tornaram mais inclinados a buscarem uma solução quando surge uma disputa, disse Michael D. Silverman, o diretor executivo do grupo.
Silverman citou um recente caso no Kansas do qual seu grupo cuidou, no qual um estudante biologicamente masculino de 10 anos queria ser conhecido por um nome feminino e se vestir como uma menina. A escola, ele disse, no final concordou.
Ensaio de fotos destaca a beleza única das crianças transgênero (são as fotos que estão no início do post)

Nos últimos 12 anos, a fotógrafa holandesa Sarah Wong vem registrando as experiências de um grupo de crianças que fizeram – ou estão no processo de fazer – transição de gênero.
Wong capturou imagens de participantes de um programa da Universidade VU, de Amsterdã, que apoia crianças que têm disforia de gênero. Várias das crianças tomaram bloqueadores para atrasar os efeitos da puberdade até que elas decidam como querem viver suas vidas. As fotos foram feitas nas casas das crianças, na escola, em aulas de balé – lugares em que elas se sentiam mais à vontade.
Wong compartilhou as imagens com o mundo por meio de “Inside Out: Portraits of Cross-Gender Children” (Do avesso: retrato de crianças transgênero, em tradução livre), publicado em 2011. Ellen de Visser, jornalista especializada em medicina do jornal Volksrat, escreveu o texto do livro.
O The Huffington Post conversou com Wong esta semana sobre as crianças do livro e sua experiência de documentar a experiência delas.
The Huffington Post: Qual foi seu objetivo/intenção ao fotografar essas crianças?
Sarah Wong: Meu objetivo era ajudá-las a encontrar a felicidade. Queria que os retratos as empoderassem – que não fossem uma abordagem sensacionalista. Não um menino de vestido ou uma menina com uma bola de futebol. Quando as pessoas viam os retratos, diziam: “Que crianças adoráveis, mas quem são?”

As fotos mostravam crianças adoráveis com uma consciência forte: eis quem eu verdadeiramente sou. No fim das contas somos todos iguais – almas que querem ser felizes e viver com compaixão.
The Huffington Post: Como foram as experiências dessas crianças na clínica?

Sarah Wong: As crianças tiveram ótimas experiências na VUmc, por causa dos bloqueadores de puberdade. O maior pesadelo de uma criança transgênero é que seu corpo cresça na direção errada. Os meninos não querem seios e as meninas não querem barba. Os bloqueadores de puberdade são um alívio e dão um tempo a mais para pensar. E as crianças podem crescer como adolescentes “normais”.

The Huffington Post: Por que, como fotógrafa, é tão importante dar visibilidade a essas histórias e experiências?
Sarah Wong: Seu trabalho como artista pode ter impacto importante na opinião pública. Sempre me interessei muito por identidade e compaixão, e às vezes me sentia mais psicóloga que fotógrafa.
Percebi muito cedo, aos 21 anos, na faculdade de artes, que as fotos podem ter grande impacto na opinião pública. Fui muito inspirada por Robert Capa e Henri Cartier-Bresson, fotógrafos da agência Magnum.
É muito importante que a sociedade veja essas imagens – não há nada fora do comum com crianças transgênero. De novo, no fim das contas somos todos muito parecidos: somos almas que querem viver felizes e dar sentido às nossas vidas e às dos outros.
Foi durante esse projeto que repentinamente percebi por que essas fotos são incrivelmente importantes para as crianças. As imagens mostram quem elas realmente são. As fotos são quase provas jurídicas para elas.
Em geral, fotos têm a ver com as emoções e o ego do artista. Bem, durante esse projeto meu ego encolhia a cada sessão de fotos, porque eu estava a serviço das crianças. E gostei muito do fato de que as imagens tinham um propósito maior. Infelizmente, nunca pude mostrá-las num museu, por causa da integridade das crianças. Agora que elas estão mais velhas, estou procurando um lugar. A sociedade e a opinião pública mudaram.
The Huffington Post: O que você espera que as pessoas tirem dessas fotos?

Sarah Wong: Eu realmente espero que a audiência do The Huffington Post tire das fotos um olhar de compaixão. Isso significa ser capaz de olhar com o coração – livre de emoções pessoais.

Se você se emociona com o sofrimento do outro não consegue empoderá-lo. O primeiro médico a ajudar essas crianças também foi um pioneiro. Nos finais de semana, ele era diácono de uma igreja. Ele queria ajudar transgêneros por que os via com compaixão – não como médico, mas como ser humano.

LEIA TAMBÉM






Disponível em: http://www.vilamulher.com.br/familia/filhos/crianca-transgenero-9152.html; http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/04/150407_criancas_transgenero_uk_fn; http://www.brasilpost.com.br/2015/06/01/criancas-transgenero_n_7486722.html; http://educacao.uol.com.br/noticias/2013/03/19/nos-eua-pais-seguem-luta-para-que-crianca-transgenero-seja-tratada-como-menina.htm. Acesso em: 18/09/2015.

Imagens disponíveis em: http://www.brasilpost.com.br/2015/06/01/criancas-transgenero_n_7486722.html. Acesso em: 18/09/2015.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O QUE AS CARTILHAS DE ALFABETIZAÇÃO ENSINAM?


As cartilhas (e o que elas ensinam) têm sido alvo de algumas polêmicas. Até então, a preocupação era se o seu conteúdo estaria adequado às novas concepções de aprendizagem, que levam em conta as diferentes culturas e contextos escolares. Desde a divulgação dos Kits contra a Homofobia nas escolas para crianças a partir dos 6 anos de idade até os adolescentes do Ensino Médio, muitos têm se rebelado contra o conteúdo dessas cartilhas. O argumento geralmente se pauta na ideia de que esses livros "não ensinam apenas como colocar um preservativo no pênis", o que tem sido foco das propostas de educação sexual nas escolas já há algum tempo. O que incomoda mais é que essas cartilhas ensinam sobre as diferenças sexuais e também que "um casal homossexual ou bissexual deve ser aceito pelas crianças e que não há nada de errado se um coleguinha for adotado por dois “país” ou duas “mães”". Outra crítica feita é em relação às cartilhas distribuídas pelo SUS nos postos de saúde e nas escolas, que ensinam sobre o uso de drogas.







Essa mesma indignação não ocorre, pois, quando as cartilhas ensinam às crianças sobre como se proteger em caso de troca de tiros. Assim, logo se vê que a sexualidade ainda é uma questão pouco trabalhada não só nas escolas, mas também na família e na religião, que costumam permiti-la somente se estiverem dentro de um padrão heteronormativo (papai e mamãe) que foi construído em algumas sociedades. Daí a necessidade de torná-la alvo de um investimento (de conversas, de leituras, de esclarecimento). Se as famílias não costumam abordar o assunto, é na escola que se deve mostrar as várias formas de se viver a sexualidade. Escola é local de convivência entre pares e com os mais experientes (professores). Escola é lugar de união e respeito. Se há outras formas de viver a sexualidade, a escola e a sociedade devem estar aptos a acolher todas elas. Ou será que queremos continuar ensinando o preconceito?

Disponível em: http://blogdoparrini.blogspot.com.br/2013/04/fim-do-mundo-cartilhas-do-governo.html; https://canalconselhotutelar.wordpress.com/2012/08/20/governo-lanca-cartilha-que-estimula-criancas-09-e-10-anos-de-idade-a-fazer-sexo/; http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2015-01-22/cartilha-ensina-a-populacao-como-se-proteger-em-caso-de-troca-de-tiros.html. Acesso em: 22/06/2015.

Imagem disponível em: http://pt.slideshare.net/nobrelauane/cartilha-imoral-distribuda-em-escolas. Acesso em: 22/06/2015.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

GÊNERO E RELIGIÃO


Grupos religiosos estão em uma cruzada nas câmaras municipais brasileiras para evitar que a palavra "gênero" passe a fazer parte dos planos municipais de educação, o conjunto de metas que as prefeituras terão que adotar pelos próximos dez anos e que estão sendo votadas em vários pontos do país neste ano. Em São Paulo, a pressão surtiu efeito e o termo desapareceu, na última quarta-feira, das 34 páginas que estão sendo discutidas desde 2012.
A pressão repete o que já foi visto no ano passado, durante a discussão do Plano Nacional de Educação, em Brasília, quando olobby religioso, liderado especialmente pelos deputados evangélicos, também suprimiu a palavra do texto final. É apenas mais um exemplo da mobilização de grupos religiosos para fazer valer suas posições nas discussões relacionadas a inclusão e direitos humanos no Brasil. Na própria quarta, deputados cristãos tomaram o plenário da Câmara, presidida pelo evangélico Cunha, para protestar. Rezaram um Pai Nosso diante dos holofotes durante a votação da reforma política por considerarem absurda a imagem de uma transexual crucificada durante a Parada Gay em São Paulo, no último domingo.   
O argumento contra a palavra "gênero", tanto no ano passado como neste ano, é que a inclusão, ainda que dentro do contexto da criação de regras para a "promoção da igualdade", confere um caráter ideológico ao tema, em oposição ao uso da palavra "sexo", uma alusão biológica. Os que odeiam a palavra afirmam que querem evitar a inclusão nas escolas do que chamam de "ideologia de gênero", que pressupõe que cada indivíduo tem o direito de escolher o próprio gênero, sem ser definido, necessariamente, pelo sexo biológico.
"A expressões gênero ou orientação sexual referem-se a uma ideologia que procura encobrir o fato de que os seres humanos se dividem em dois sexos. Segundo essa corrente ideológica, as diferenças entre homem e mulher, além das evidentes implicações anatômicas, não correspondem a uma natureza fixa, mas são resultado de uma construção social", explica Dom Fernando Arêas Rifan, bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney (Rio de Janeiro), em uma nota publicada pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). "Os que adotam o termo gênero não estão querendo combater a discriminação, mas sim desconstruir a família (...) e, deste modo, fomentam um estilo de vida que incentiva todas as formas de experimentação sexual desde a mais tenra idade", continua.
Além de Dom Fernando, também se manifestaram contrariamente à "ideologia de gênero" ao menos outros três religiosos: o bispo do município de Frederico Westphalen (RS), Antônio Carlos Rossi Keller, o padre Paulo Ricardo, popular pároco da arquidiocese de Cuiabá (MT) que oferece aulas no YouTube sobre a doutrina católica e tem quase um milhão de seguidores no Facebook, e o cardeal Dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo, que emnota divulgada no última segunda-feira disse que "as consequências de tal distorção antropológica na educação poderão ser graves". "Os legisladores [devem evitar] a ingerência do Estado no direito e dever dos pais e das famílias de escolherem o tipo de educação dos filhos", completou.
As manifestações dos religiosos impulsionaram uma série de protestos em câmaras municipais do país, onde o tema está sendo discutido. O que, por sua vez, desencadeou reações de movimentos feministas e LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais), transformando as casas legislativas em uma batalha de gritos.
Em Campinas, uma das cidades mais importantes do Estado de São Paulo, é discutido o "Projeto de Emenda à Lei Orgânica Anti-ideologia de Gênero", que proíbe que sejam realizadas legislações sobre o tema na cidade. Na Câmara houve beijaço de manifestantes gays contrários à lei ao lado dos que seguravam cartazes que diziam "não à ideologia de gênero", "pelo direito natural da família". "Que tragédia! A mãe gerou uma criança e agora essa criança cresceu e não quer que ninguém mais seja homem nem mulher. A emenda que fizemos é a emenda do amor, a emenda da fraternidade, que trata de homem e de mulher", explicava aos manifestantes em uma audiência no final do mês passado o vereador Campos Filho (DEM), ex-secretário da Arquidiocese de Campinas e ligado a padres locais. A questão também é calorosamente discutida em Guarulhos (Grande São Paulo) e em Maceió (Alagoas).
Na capital paulista, a palavra gênero aparecia em seis metas doPlano Municipal de Educação, enviado para a Câmara ainda em 2012 pelo então prefeito Gilberto Kassab (PSD). Entre elas, a 6.5, que obriga o município a "fomentar a implementação de políticas de prevenção à evasão motivada por preconceito e discriminação à orientação sexual ou à identidade de gênero e étnico-racial, criando rede de proteção contra formas associadas de exclusão". O texto já havia sido aprovado em duas comissões, entre elas a de educação, sem polêmicas. Até que, na segunda audiência pública promovida pela comissão de finanças, grupos religiosos iniciaram a pressão. A aprovação nesta comissão seria o último passo antes da votação no Plenário.
"A partir da segunda audiência veio esse grupo de algumas igrejas católicas e evangélicas que pede a retirada da tal ideologia de gênero do texto", explica o vereador Toninho Vespoli (PSOL), relator do projeto na comissão de educação. "Até então, eu nunca tinha escutado esse termo. Eles afirmam que as crianças seriam tratadas de forma assexuada, podendo inclusive usar os mesmos banheiros, independentemente do sexo. Mas não é nada disso. Trazemos uma discussão de direitos humanos, de acabar com o preconceito e o machismo e de evitar que as crianças sejam oprimidas no ambiente escolar. Não dá para ignorar o conflito que já existe por causa da homofobia", ressalta o vereador. "Há toda uma visão conservadora se colocando no debate educacional e que não possibilita a discussão da diversidade", desabafa o vereador Paulo Fiorilo (PT), relator do texto na comissão de finanças.
Nesta quarta-feira, quando haveria a votação do texto na comissão, militantes, de ambos os lados, se aglomeraram dentro e fora do plenário, aos gritos. Os vereadores, entretanto, decidiram derrubar o relatório de Fiorilo, que mantinha a palavra "gênero". No lugar, resolveram apoiar um substitutivo do vereador Ricardo Nunes (PMDB), que retirou as sete menções à palavra —e a única à transgênero— que existiam no plano. A meta 6.5, por exemplo, virou: "Fomentar a implementação de políticas de prevenção à evasão motivada por preconceito e discriminação étnico-racial, criando rede de proteção contra formas associadas de exclusão". O texto agora seguirá para votação final no plenário, que deve começar na próxima semana.
Os estudos desenvolvidos nos últimos anos pelo grupo de pesquisa Gênero e Religião, na PUC de São Paulo, tornaram mais clara a consciência da necessidade de se interrogar o universo das religiões a partir de uma perspectiva feminista. Trabalhar a relação das mulheres com as religiões e destas com as mulheres é sempre estar sobre um campo minado. Dados estatísticos costumam confirmar a observação do senso comum de que as mulheres investem mais em religião do que os homens. Daí se conclui que elas seriam 'mais religiosas' do que eles. Tal visão esconde um enorme equívoco que as atuais formas fundamentalistas das religiões, no Ocidente como no Oriente, vêm desvendar. Na verdade, as religiões são um campo de investimento masculino por excelência. Historicamente, os homens dominam a produção do que é 'sagrado' nas diversas sociedades. Discursos e práticas religiosas têm a marca dessa dominação. Normas, regras, doutrinas são definidas por homens em praticamente todas as religiões conhecidas. As mulheres continuam ausentes dos espaços definidores das crenças e das políticas pastorais e organizacionais das instituições religiosas. O investimento da população feminina nas religiões dá-se no campo da prática religiosa, nos rituais, na transmissão, como guardiãs da memória do grupo religioso.

Este dossiê foi pensado e construído tendo-se em mente essa problemática complexa da construção social das religiões, atravessadas pelas relações de gênero, classe e raça. Desde a famosa afirmação de Simone de Beauvoir – "não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres" muito se progrediu no campo dos estudos feministas e de gênero, tendo-se sempre em pauta a premissa fundamental de que 'feminino' e 'masculino' são menos fatos biológicos do que construções sociais e culturais. "O primeiro objetivo dos estudos de gênero é desconstruir o preconceito de que a biologia determina o feminino, enquanto que a cultura ou a dimensão humana é uma criação masculina."1 Essas linhas diretivas do pensamento feminista têm nas religiões suas principais antagonistas, uma vez que estas definem 'a natureza humana' como resultado de uma determinação divina intocável. As religiões têm, explícita ou implicitamente, em seu bojo teológico, em sua prática institucional e histórica, uma específica visão antropológica que estabelece e delimita os papéis masculinos e femininos. O fundamento dessa visão encontra-se em uma ordem não humana, não histórica, e, portanto, imutável e indiscutível, por tomar a forma de dogmas. Expressões das sociedades nas quais nasceram, as religiões espelham sua ordem de valores, que reproduzem em seu discurso, sob o manto da revelação divina. O lugar das mulheres no discurso e na prática religiosa não foi, e freqüentemente ainda não é, dos mais felizes.
Daí nossas perguntas, cuja atualidade se mantém, diante da investida dos grupos fundamentalistas religiosos: Do ponto de vista das lutas feministas, como devemos compreender a intensa presença feminina nas igrejas, templos e terreiros? O que as mulheres buscam e o que encontram nas diferentes religiões?

Ao adentrarmos uma das muitas igrejas ou templos que se espraiam nesse Brasil de religiosidade plural e forçadamente ecumênico, notamos de imediato a forte presença feminina. As mulheres compõem, de fato, a maioria da população de fiéis. 'Em nome de Deus', tornam-se ativistas, freiras, obreiras, pastoras, bispas, mães-de-santo, políticas... Na sombra ou nos palcos e altares, grande parte das fiéis carrega para a igreja o marido, os filhos, a família, o círculo social e profissional onde atuam. Contudo, sua presença continua silenciosa e suas razões não ditas. Por que há tantas mulheres 'em busca de Deus'? O que as religiões dão às mulheres e o que elas dão às religiões? Como explicar o forte apelo que o âmbito religioso provoca nas mulheres? Sua presença modifica o projeto religioso no qual se inserem? E de que forma isso ocorre?
O presente dossiê se propõe a buscar respostas para essas questões, com a apresentação de resultados de pesquisas que mostram como gênero e religião se entrecruzam, em uma teia complexa de experiências que, se incorporadas à reflexão feminista, podem promover um nova onda de engajamento, rumo ao avanço de uma visão sempre mais corporificada, diria Donna Haraway, do próprio pensamento feminista.

Nosso primeiro projeto para este dossiê foi que pudesse refletir a variedade e riqueza do universo religioso brasileiro, incluindo também a reflexão afinada de algumas autoras estrangeiras. Enfrentamos então o desafio de encontrar autoras e pesquisadoras com consciência feminista que estivessem envolvidas pessoal ou academicamente com diversas denominações religiosas. Apesar de os estudos de gênero e religião terem aumentado em número e qualidade, ainda temos menos estudos críticos do que seria desejável. Além disso, nos deparamos com o uso ambíguo do conceito de gênero, às vezes significando relações sociais, às vezes utilizado como sinônimo de sexo. Os textos que compõem o dossiê refletem essa diversidade interpretativa do gênero. Optamos por mantê-lo assim, porque acreditamos que tais divergências são parte integrante da reflexão feminista contemporânea.

Ao mesmo tempo que organizávamos este dossiê, preparávamos também o próximo número da revista eletrônica REVER, do Programa de Pós-Graduação de Ciências da Religião da PUC/SP. Dos artigos que recebemos, sete compõem este dossiê; os demais serão parte da REVER, a ser publicada proximamente.2 O presente dossiê inclui quatro autoras estrangeiras e três brasileiras, abrangendo seis expressões religiosas: Budismo, Islamismo, Cristianismo antigo, Pentecostalismo, Catolicismo e Candomblé. Uma visão rápida dos textos convidará leitoras e leitores a entrarem nesse universo complexo.

A teóloga italiana Adriana Valerio resgata do silêncio da história algumas das mulheres que, desde o Renascimento, propuseram interpretações radicais e inovadoras de conceitos teológicos e de textos da Escritura, tradicionalmente lidos de forma androcêntrica.
Janine Mossuz-Lavau cruza sexualidade e religião em uma pesquisa com mulheres muçulmanas, migrantes, que vivem na França em situação de precariedade. O artigo confirma a alta correlação já apontada em outros estudos, entre níveis mais altos de escolaridade e tendência à adoção de idéias liberais. No caso da religião muçulmana, uma das mais restritivas no que diz respeito às mulheres, a detenção de um forte capital escolar tenderia a afastar as mulheres de uma observância estrita das práticas religiosas e a levá-las, ao mesmo tempo, a abandonar os preceitos em vigor em matéria de sexualidade.

Os efeitos contraditórios da adesão religiosa ao Pentecostalismo sobre a vida das fiéis e os limites e possibilidades do processo de reconfiguração das subjetividades femininas e masculinas no interior dessas comunidades religiosas são estudados por Maria das Dores Campos Machado. Já Mónica Tarducci, pesquisadora e ativista feminista, mostra a dramática influência da Igreja Católica na Argentina, analisando sua atuação em dois momentos significativos: os Encontros Nacionais de Mulheres e as discussões em torno da possibilidade de mudanças legislativas em favor dos direitos humanos, em geral, e daqueles das mulheres, em particular.
Em "Transas e transes: sexo e gênero nos cultos afro-brasileiros, um sobrevôo", Patricia Birman reflete sobre duas dificuldades recorrentes nos estudos sobre os cultos de possessão no Brasil: uma, 'quase secular', relativa ao próprio conceito de possessão; e outra, mais recente, mas não menos relevante, que diz respeito aos "embaraços provocados pelos comportamentos 'pouco convencionais' relativos ao gênero e à sexualidade dos médiuns". É a partir daí que a autora problematiza as formas pelas quais questões de gênero são tratadas em alguns trabalhos antropológicos recentes sobre as religiões afro-brasileiras.

Rita M. Gross, pesquisadora e ativista feminista americana, praticante do Budismo Tibetano Vajrayana, afirmando que as práticas e instituições budistas não são neutras quanto ao gênero, defende a importância de se ter no Budismo mestras reconhecidas, professoras de dharma. No Catolicismo, são as sacerdotisas que faltam. Sílvia Fernandes, socióloga brasileira, discute a não-ordenação feminina na Igreja Católica, a partir de uma pesquisa com rapazes e moças 'vocacionados/as', isto é, jovens seminaristas e moças que desejam ingressar em conventos. As entrevistas trazem à tona a consciência, ora vaga, ora mais aguçada, das desigualdades de gênero no Catolicismo.

Organizar este dossiê foi uma experiência coletiva, particularmente gratificante e desafiadora. Ao final, esperamos que possa instigar novas interrogações e pesquisas que permitam avanços significativos nos estudos feministas das religiões.

Em outra pesquisa realizada em 2010, Pode-se perceber que nas religiões católica, evangélica- Igreja Universal do Reino de Deus e judaica ainda há, mesmo que camuflada, uma concepção tradicional do papel da 1718 XI Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 09 a 12 de agosto de 2010 mulher. Isso pode ser evidenciado pelo fato de mulheres não serem aceitas como presidentes dos cultos, nem poderem fazer parte da hierarquia clerical nas instituições. Na religião católica, por ser Maria o símbolo de mulher, traz consigo uma série de expectativas onde a mesma deve encaixar-se, assemelhando-se às virtudes marianas como, por exemplo, humildade, silêncio, obediência, castidade. Sem contar que a ela é incumbida, obrigatoriamente, a mesma grande missão de Maria, ser mãe. 

Dentro da Igreja Universal do Reino de Deus, o homem é visto como a cabeça, quem comanda as direções da família, a mulher, por sua vez, é considerada o corpo, aquela que faz as ordens da cabeça. Nas observações realizadas, a Igreja Universal considera que o homem como cabeça e a mulher como corpo uma visão natural, inerente aos seres humanos, imposto desde a criação do mundo. A mulher considerada sábia é aquela que edifica o lar, ou seja, faz de tudo para que sua família tenha unidade, amor e felicidade, ela trabalha dentro da sua própria casa, deixando a profissão fora para o marido. A mulher independente financeiramente é vista como infeliz, pois vive em busca de liberdade, todavia não vê que a liberdade só é encontrada em conjunto com seu marido e Deus. 

A mulher independente rejeita o homem como o chefe da família e do relacionamento, a mesma não aceita o próprio criador que deu ao homem autoridade sobre toda a criação, e à mulher a capacidade de edificar o lar. No judaísmo, apesar de os homens serem considerados elevados perante as mulheres, são também considerados incompletos até se casarem. A mulher judia é chamada de "Akeret Habayit" - a fundação do lar. É ela que tem a capacidade e as características de segurar uma casa. Além disso, ela deve manter acesa a vela da religião, para isso, deve manter a pureza da alimentação kosher, de taharat hamishpachá (santidade da vida conjugal) e da educação dos filhos desde os primeiros passos dentro do judaísmo. Na sinagoga, pessoas de diferentes sexos são separadas, as mulheres sentam-se atrás de uma mechitsá e são privadas de exercer algumas funções permitidas apenas para os homens. 

No entanto, há argumentos de que isso não seria uma “diminuição” da mulher e sim uma diferença nos papéis designados para cada sexo. Já no umbandismo, homens e mulheres são vistos como iguais, nota-se a importância da mulher e uma maior igualdade em relação ao papel desempenhado pelo homem. O orixá Ogum, por exemplo, é representado por uma figura masculina e feminina, mostrando a complementaridade dos opostos e a instabilidade, também é possível ver a figura forte de orixás femininos, como Iemanjá rainhas das águas e mãe de muitos orixás, ela transpassa a imagem da fertilidade e maternidade da mulher. Outro aspecto importante a considerar é 1719 XI Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 09 a 12 de agosto de 2010 hierarquia Umbanda, onde o chefe do terreiro poder ser tanto um homem (pai-de-santo), quanto uma mulher (mãe de Umbanda).

O livro Gênero e Religião no Brasil: Ensaios Feministas reúne oito artigos de pesquisadoras brasileiras da relação entre gênero e religião, a partir de diferentes áreas de conhecimento, como História, Sociologia, Antropologia e Teologia, no que se refere aos grupos católicos e evangélicos. 

Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-026X2005000200009&script=sci_arttext; http://www.unicamp.br/~aulas/Conjunto%20III/r1.pdf; http://www.pucrs.br/edipucrs/XISalaoIC/Ciencias_Humanas/Psicologia/84232-KYNDZERODRIGUESHORLLE.pdf; http://brasil.elpais.com/brasil/2015/06/11/politica/1434059650_940148.html. Acesso em: 17/06/2015.

Imagem disponível em: http://www.verdadegospel.com/ministerio-publico-diz-que-lei-do-pai-nosso-e-inconstitucional/. Acesso em: 17/06/2015.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

SEXUALIDADE NAS BRINCADEIRAS INFANTIS


A sexualidade infantil têm despertado muito interesse e atenção por parte de pais, educadores e psicólogos. 
Começo contando uma história real, ocorrida neste ano. Uma profissional foi convidada por uma escola de Educação Infantil para dar uma consultoria sobre o seguinte caso:
Crianças de aproximadamente cinco anos haviam feito uma brincadeira no banheiro: elas se desafiavam a colocar o pênis de um colega na boca. Um dos meninos ficou sabendo da brincadeira e, ao chegar em casa, contou para a mãe o ocorrido. Em pânico, a mãe ligou para os demais pais. Eles combinaram de falar com a diretora da escola – que, até então, não sabia  de nada.
Vocês podem imaginar como a diretora ficou ao saber da história… Foi quando ela pediu ajuda para essa profissional. As dúvidas eram muitas:
- Por que as crianças haviam feito aquilo?
- A brincadeira indicava comportamento homossexual?
- Como indicar às crianças que a brincadeira era imprópria?
- Qual a melhor abordagem para tratar do assunto com os pais?

O que eu fiz

Num primeiro momento, houve uma conversa longa e detalhada com a diretora, com a psicóloga da escola e com a professora que estava responsável pelos alunos durante o momento em que se deu a brincadeira sexual. O objetivo era entender melhor o que havia ocorrido. Segundo elas, na hora, nada no comportamento das crianças indicava que elas estavam fazendo uma brincadeira. Elas apenas entravam no banheiro, como é comum acontecer. Mas um vídeo da câmara de segurança do pátio mostrava que, enquanto dois deles entravam no banheiro, um tomava conta para avisar caso fossem descobertos. Era um indício de que eles sabiam estar participando de uma atividade que não seria facilmente aceita no ambiente escolar.

A partir desse entendimento preliminar, ficou decido que abordariam o problema de forma global, por meio de quatro linhas de ação:
1- Com os alunos

A psicóloga da escola juntou todos os envolvidos, sem alarde, e conversou com eles pedindo para que contassem sua versão do fato. Também colocou a eles uma questão central: “Qual foi a motivação para fazer a brincadeira?”

A resposta levou ao encaminhamento da conversa: “Foi para provar coragem!”. Eles apostaram para ver quem conseguia vencer o nojo de pôr um pênis na boca.Ou seja: eles sabiam que a brincadeira não era aceitável, mas não pelos motivos que imaginávamos: não havia um caráter de sexualização, mas, sim, um desafio às normas socialmente estabelecidas.
Em uma conversa, a psicóloga mostrou para os pequenos a importância do corpo de cada um, explicando que nele há partes que todo mundo pode ver e até tocar, com a permissão deles. Mas existem outras – como o pênis – que são da nossa intimidade, não devem ficar à mostra e nem ser tocado em brincadeiras. Além disso, ela mostrou que existem muitas formas de coragem, como por exemplo, assumir um erro, enfrentar um colega que queira lhe agredir, defender um amigo, pedir ajuda quando precisa… e que se um tem coragem para uma determinada coisa, o outro pode ter para outra. Não precisa de provas para eles se descobrirem corajosos: no dia a dia eles já são testados com as obrigações e oportunidades que surgem na escola, na sala de aula, na família, na relação com os amigos.
Para finalizar, ela deixou bem claros os limites da escola para aquele tipo de brincadeira: não era para se repetir.
2 - Com os pais dos alunos envolvidos

Assim, a profissional convidada, a psicóloga da escola e a diretora promoveram um encontro em que deixaram, inicialmente, que eles colocassem tudo o que os estava preocupando com relação à confiança na atenção da escola aos alunos, à segurança e em relação ao significado sexual deste comportamento. As questões relacionais entre pais e escola foram respondidas e ponderadas pela diretora e a psicóloga, que assumiram o compromisso de aumentar a atenção aos alunos nos horários que estão fora da sala de aula e preparar seu professores e funcionários para estarem atentos e saber lidar com o comportamento sexual na infância.

Quanto às questões sexuais, era hora de a profissional convidada falar. Ela os tranquilizou, principalmente em relação à suposta influência que aquela experiência poderia ter na orientação sexual de seus filhos – uma das principais preocupações dos pais. Mostrou como se dava o desenvolvimento da sexualidade na infância, pontuando que a brincadeira sexual entre crianças da mesma idade não afeta em seu desenvolvimento – e muito menos interfere ou provoca a homossexualidade quando ocorre com crianças do mesmo sexo. O interesse deles não é sexual: é uma questão de curiosidade e oportunidade.
3 – Com os demais pais

Ela realizou uma palestra sobre o desenvolvimento sexual da criança e mostrou como construímos, na infância, os alicerces que compõem nossa sexualidade: a vinculação afetiva, a configuração da imagem corporal, a identidade sexual de gênero , a segurança, os medos e as preocupações… E também as sensações eróticas.

Novamente, o cerne foi indicar que não há nada de errado na expressão da sexualidade na infância – a mudança deve vir mais de nós, adultos, do que deles. Precisamos saber lidar com a situação, ouvindo as curiosidades da criança e, com base nelas, ensinar sobre seu corpo, sua responsabilidade e, principalmente, sobre os limites de boa convivência na família ou na escola.

4 -Com os professores

Foi realizado um curso sobre sexualidade infantil, em que todas as temáticas levantadas foram detalhadamente conversadas, para que o professor adquirisse naturalidade e um tipo de postura adequada para lidar com o comportamento sexual na infância.
A partir dessas abordagens, a situação-problema foi contornada. Além disso, conseguiram realizar um trabalho de orientação com pais, alunos, professores e gestores sobre a importância de entender os comportamentos sexuais dos pequenos – e não apenas reprimi-los quando não os julgarmos adequados.

Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/blogs/educacao-sexual/2013/10/31/brincadeiras-sexuais-entender-ou-reprimir/. Acesso em: 22/04/2015.